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Opinião Sábado, 23 de Março de 2024, 09:44 - A | A

Sábado, 23 de Março de 2024, 09h:44 - A | A

JOÃO ELOY

A cadela do Lucindo

João Eloy

Lucindo era um amigo que fiz na lida com a música, em um momento dramático para ele: sua mãe o havia expulsado de casa; parece que havia rogado uma praga para ele, pois se perdera nos caminhos tortuosos da vida.

Lucindo era dependente químico, tendo fumado o primeiro “baseado” ainda adolescente, aos 14 anos de idade. Certa vez, flagrado fumando maconha, foi parar no presídio para menores infratores, verdadeira escola do crime.

Após cumprir sua pena, encontrou nas esquinas da vida uma ex-namorada que, penalizada com sua situação, recolheu-o em sua casa. Já haviam sido colegas de palco na noite cuiabana e ela possuía em seus guardados, um computador velho e uma guitarra que, com sua habilidade, Lucindo recauchutou e colocou em funcionamento.

Como éramos conhecidos de longa data, Sílvia me ligou, solicitando que eu desse uma chance para que o seu companheiro pudesse produzir o meu próximo CD.
E assim foi feito. Confesso que foi uma maratona: num momento o velho computador travava, a guitarra desafinava, o nervosismo tomava conta e logo perdíamos a paciência um com o outro.

Para acalmar os ânimos tão exacerbados pelos acontecimentos, meu amigo acendia um cigarro. Enquanto soltava longas baforadas, contava os dramas de sua vida mundana. Com o passar do tempo e após muitas preces de sua nova companheira, Lucindo se reergueu.

O CD, contendo 17 canções de minha autoria, ficou pronto e foi lançado com sucesso.

Ficamos bem amigos, apesar das várias recaídas que tomavam conta do frágil Lucindo. Nessas horas, ali estava eu para apoiá-lo e orientá-lo. Sempre me lembrava das datas comemorativas e ligava para ele, cumprimentando-o. Então ele choramingava do outro lado da linha, dizendo que eu era o único que lembrara dele. Eu procurava consolá-lo, incentivando-o a perdoar, principalmente seus pais que, aparentemente, não se recordavam da sua existência.

Parecia que tudo se encaminhava bem, mas sua amiga e companheira Sílvia, durante os longos anos de ausência do Lucindo, havia reconstituído sua vida. Inclusive, de um de seus relacionamentos, teve um filho.

Pois bem, quando o ex da Sílvia queria contato com ela para visitar o filho, o ciúme tomava conta do sofrido coração do meu amigo. Assim, eles terminaram o seu caso de amor e o Lucindo foi morar sozinho. Solitário, só lhe restou retomar o vício.

Certa vez ligou-me, altas horas da noite:
_ João, corre aqui. Não estou bem.
_ Ora, onde está a Sílvia?
_ Terminamos. Não estava dando certo.

Ao chegar em sua casa, Lucindo estava caído ao chão, tremendo e gemendo. Ao verificar sua pressão arterial constatei que estava muito alta e seu coração batia acelerado, com algumas extrassístoles. Preocupado, coloquei sob sua língua medicamentos que protegiam seu coração e chamei o SAMU, socorro médico de urgência, que logo chegou e transportou-o para o devido atendimento.

Passados alguns dias, Lucindo me contactou, agradecendo emocionado, por eu ter salvo sua vida.
Ficamos algum tempo sem nos falarmos. Soube então que ele havia construído, no seu cantinho, um modesto estúdio para gravações, o qual foi por mim bastante utilizado em alguns trabalhos musicais.

Depois do susto Lucindo se regenerou, entrou para uma igreja e abandonou o vício.

Certo dia ligou-me, todo faceiro, dizendo que havia encontrado, enfim, uma companheira fiel. Surpreso, perguntei-lhe de quem se tratava. Entre gostosas gargalhadas, Lucindo relatou-me que ia passando em frente a um canil e parou para observar uma grande quantidade de cães que ali estavam para adoção. Tão abandonados quanto ele.

Uma cuidadora veio ao seu encontro, perguntando se ele se interessara por algum animal.
_ Olhe, essa cadelinha rajada está me olhando há algum tempo, parecendo estar sorrindo para mim. A danada não para de abanar o rabinho.
_ Sim, ela é realmente cativante, mas não sei se vai querer levá-la, pois é manca de uma pata. Só usa as outras três.

Aquela informação cortou o coração do meu amigo, que decidiu adotar o pobre animal. E deu-lhe o nome de Daisy. Já em casa, Daisy era uma estrela com as patas no quintal do Lucindo.

Lucindo a acomodou num cobertor velho ao lado de sua cama. Passaram a ser uma dupla inseparável.

Os cachorros da vizinhança, porém, logo a descobriram e a cadelinha instigava o seu instinto de preservação da espécie.

Um belo dia Daisy entrou no cio e aconteceu o que a natureza determinava. Ela pulou a cerca e logo foi coberta por um dos cães. Ao notar sua ausência, Lucindo saiu correndo atrás dela e quando a encontrou, lá estava sua linda cadelinha acoplada ao cão que escolhera.

Passados alguns meses, o Lucindo se tornou “vovô” de quatro cachorrinhos lindos e cuidou da cadela e seus filhotes, enquanto viveram.
O pequeno quintal do meu amigo se transformou numa festa da nova família: Lucindo, Daisy e seus filhotinhos. Orgulhoso, ele sempre postava nas redes sociais suas fotos com seus cães, sorrindo de orelha a orelha.

Ao visitá-lo, depois de longo tempo, adentrei em sua casa, tropeçando nos membros de sua família, todos demonstrando alegria ao me verem, pulando em cima de mim. Parece que percebiam que eu fazia parte daquele contexto.

Pude observar também que a família aumentara, pois o amigo Lucindo se apaixonara novamente e estava muito bem, com sua nova mulher, que também era sua fã, pois ele, realmente, sempre foi um músico multi-instrumentista, muito talentoso.

João Eloy é chapadense, médico, professor, escritor, compositor, músico, apresentador do Programa Varanda Pantaneira e articulista do Alô Chapada.

 

 

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